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“O meu povo ainda ocupa os subempregos por salários de fome e não por opção, ainda são os primeiros nas estatísticas de extermínio, não temos o que comemorar…”

Não foi por nós!

Neste 13 de Maio de 2020 completam-se 132 anos da abolição da escravatura no Brasil, que inclusive foi o último país do Ocidente a abolir a escravidão ( em 13 de Maio de 1888 através da lei n 3.353).

Em 1888 a escravidão ja não era algo rentável economicamente falando e para manter uma boa relação com a Inglaterra, o Brasil estabeleceu algumas leis, leis que popularizaram o termo “Para inglês ver” o que significa que, na prática obviamente não funcionavam.
Sabendo que a abolição se deu por situações econômicas compreendemos que o ato de aprisionar e escravizar o povo preto não foi em si repudiado, não houve uma reflexão ou conscientização sobre. Uma grande prova de que até mesmo a abolição foi para benefício dos brancos é o levante que houve dos senhores de engenho pedindo reembolso pelo valor pago nos escravos que receberiam liberdade (mais detalhes no documentário A última abolição).


O processo de abolição começou cerca de 40 anos antes da lei Áurea, ele veio através de grupos abolicionistas, na guerra pelo rio prata onde os escravos que representassem o Brasil e sobrevivessem teriam sua liberdade e também pelos escravos que fugiam.
Com a abolição, os escravos libertados foram jogados a própria “sorte”, sem estudo, sem terras e sem nenhuma política de reparação, grande parte deste povo se uniu nos quilombos, longe de qualquer “civilização”. 132 anos após a abolição este cenário ainda é tão atual quando pensamos nas favelas, nos bairros que ficam nos extremos das cidades, distante de todo acesso ao trabalho, educação, lazer e saúde de qualidade, que estão localizados no centro para quem pode acessá-lo.

Não comemoramos o 13 de Maio, a abolição não foi por nós! Os convido a conhecer as leis vigentes naquele tempo, uma delas a lei de número 1 de 14 de Janeiro de 1837 que dizia no segundo parágrafo “São proibidos de frequentar as escolas os escravos e os pretos africanos ainda que sejam livres ou libertos.” A lei número 601 de 1850 que dizia que negros não poderiam ser donos de terras, ainda que pagassem com o trabalho. Depois da abolição ainda tivemos a lei dos vadios e capoeira número 847 de Outubro de 1890, que dizia “Aqueles que forem pegos nas ruas praticando capoeira e atos de vadiagem, que não tenham moradia fixa comprovada e trabalho serão presos.” Mais sobre as leis em https://favelapotente.wordpress.com/2018/11/07/o-brasil-e-racista-e-posso-provar/

Tendo estes dados é de fácil compreensão os motivos pelos quais o povo preto é maioria nos presídios, favelas e maior vítima de genocídio. Foram quase 400 anos de opressão e tortura, que se dão até os dias atuais; em 132 anos nem 1% dessa dívida foi reparada, em 20 de Novembro comemoramos a consciência negra, data para refletir a existência e resistência deste povo sobrevivente em sociedade, pessoas que foram torturadas, mantidas em cárcere, escravizadas e depois jogadas para que lutassem pela vida. Pessoas que fizeram parte da terceira ou quarta geração do povo preto atual, o que reforça novamente o quanto este fardo ainda está sob nós, o quanto ainda temos que caminhar e sobreviver para termos o mínimo nas políticas públicas. É cansativo, e a curtos passos tudo anda, muitas vezes até retrocede.


E você branco? Sabendo do crime histórico que foi a escravidão, sabendo das mazelas que este povo enfrenta até os dias atuais, o que você pode fazer para minimamente contribuir? Mais de 54% da população do Brasil é preta, porque essas pessoas também não são maioria ou pelo menos metade nos espaços acadêmicos, nos cargos mais relevantes em empresas, você que contrata, qual o perfil de pessoas que você procura? Qual o perfil que te assusta na rua? Como você imagina que será o médico que vai atender seu filho? Não te incomoda não ver pessoas pretas nestes espaços? Você ouve uma pessoa que te aponta um ato racista ou você se justifica?


O meu povo ainda ocupa os subempregos por salários de fome e não por opção, ainda são os primeiros nas estatísticas de extermínio, não temos o que comemorar, a abolição foi um descarte de mercadorias que já não serviam mais pra elite. E apesar de não ter o que comemorar que ao menos possamos resistir e lutar, que neste 13 de Maio os brancos entendam as reais causas da abolição e o que podem fazer enquanto pessoas que colhem os benefícios injustos obtidos por seus ancestrais que escravizaram o povo preto, como podem contribuir e compreender que o racismo não é um problema de preto, essa problemática não nasceu conosco e combatê-la é um dever histórico de todos.

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